Sobre a boate Kiss

Amanda Carneiro
3 min readJun 6, 2018

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Hoje me deparei com uma mensagem que apareceu no meu facebook, de um rapaz falando sobre sua namorada, que foi uma das vítimas. Não penso muito nesse caso. Não penso muito no que aconteceu. Não lembro muito bem das medidas tomadas, mas invariavelmente, todas as vezes que penso sobre isso choro sem conseguir controlar.

Eu não estava lá. Nenhum conhecido meu estava lá. Eu não conheço nem alguém que seja de Santa Maria, mas eu conheço o cenário. E é isso que me faz chorar. Poderia sim ter sido eu. Poderia ter sido minha irmã. Poderia ter sido meu namorado. Poderiam ter sido todos os meus amigos.

Eu nunca verifico as saídas de emergência das baladas que frequento e tenho certeza de que minha irmã também não, meu namorado também não, nem meus amigos. Eu nunca lembro de verificar se existem extintores por perto. Eu nunca perguntei se a casa está com o número permitido de pessoas. Nunca prestei atenção em se as escadas são fáceis de descer com muita gente por perto. Não gosto de carregar bolsa, por isso, na maioria das vezes meus documentos e celular(quando levo) estão com meu namorado. Poderia ter sido eu…

Eu choro por um misto de medo e desespero, preocupação e espanto comigo mesma… Como posso não prestar atenção na saída mais próxima? Como posso não ficar com meus documentos e celular colados em mim? Como posso ser tão descuidada? Não sei, só saio para me divertir com quem amo, com meus amigos e é um lugar fechado, com segurança, eu deveria poder me dar a esse luxo de ficar despreocupada… Com certeza as 242 pessoas também tiveram um pensamento parecido com esse. A gente nunca sai de casa para uma balada na intenção de estar em uma tragédia. A intenção é se divertir, mas uma tragédia não vem com aviso prévio, vem?

Lembro como se fosse hoje, eu tinha acabado de chegar de uma viagem com uma amiga e assim que cheguei vi a notícia na TV e perguntei para minha mãe o que tinha acontecido. Quando ela falou eu só sabia chorar porque eu sabia que poderia sim ter sido eu. Quando você acaba de fazer 18 e pode frequentar as casas noturnas é a coisa mais divertida do mundo, pelo menos sempre foi para mim.

Ir para as baladas sempre foi um dos meus programas favoritos e nunca, em toda minha vida, saí de casa pensando que alguma coisa ruim iria acontecer. Posso ate sair um pouco desanimada, sem muita vontade, sair mais porque meus amigos querem ir do que porque eu mesma quero, mas nunca saio pensando no pior. Aqueles jovens naquele dia também não… E hoje, alguns anos depois eu fico pensando no quanto todos eles deixaram de viver por causa disso. Era só para ser uma noite divertida. Era só mais uma balada com os amigos e no fim das contas foi o que foi.

Penso em tudo o que eu não teria vivido se fosse eu naquele dia. Eu só tinha 18. Nem imaginava quem ia ser meu namorado. Nem fazia ideia onde ia trabalhar, morar, das viagens que ia fazer, não sabia dos amigos que ia conhecer. Quantos daqueles poderiam ter sido meus amigos? Quantos daqueles tinham amigos ou irmãos, mães e pais? Todos. Quantos deles ainda queriam estar aqui hoje? Quantos deles estavam comemorando porque tinham acabado de se formar? Quantos deles estavam comemorando porque tinham sido aprovados no vestibular? Quantos deles só queriam se divertir? Dói pensar em tudo isso. Dói imaginar que pessoas com uma realidade tão comum, jovens, com seus 20 e poucos, que estavam querendo se divertir em um sábado qualquer tiveram que passar por uma dor desse tamanho.

Ninguém fez nada errado, ninguém quis se perder dos amigos ou irmãos para nunca mais ver nenhum deles, ninguém escolheu cair no meio do caminho e ser pisoteado, ninguém estava lá com a intenção de acabar em um banheiro asfixiado achando que aquela era a saída de emergência... Ninguém mereceu uma tragédia desse tamanho. Nem os que se foram, nem os que ficaram.

Eu não estava lá. Minha irmã não estava lá. Meu namorado não estava lá. Nenhum dos meus amigos estava la. Sou grata por isso. Aos que estavam, aos que tiveram sua irmã, seu namorado, seus amigos lá, nem imagino o tamanho da dor que foi e com certeza ainda é.

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Amanda Carneiro

Engenheira de software, apaixonada por tecnologia. Amo arte, amo conhecer lugares novos e viver viajando é o que me motiva todos os dias.