Amanda Carneiro
4 min readOct 30, 2019

Essa foto é de 2015.

Todas essas pessoas que estão borradas são homens. Eu estou lá no fundo. A Karolzinha está onde ela sempre estava, na primeira carteira, grudada com o professor.

Já faz mais de 1 ano que ela não está mais aqui. Só agora consigo realmente falar sobre isso. Eu e ela nunca fomos melhores amigas, mas olha essa foto, estávamos sozinhas, dentre vários homens, alguns jovens, outros, pais de família... As outras 3 ou 4 meninas do nosso ano estudavam de manhã. Nessa turma, à noite, éramos duas…

Eu e ela. Rodeadas de homens e suas opiniões. Eu e ela, nenhuma professorA nos primeiros 4 anos de curso. Eu e ela, todos os professores falando que na engenharia é onde “se separam os homens dos meninos”. Eu não sou homem. Eu não sou menino. Ela também não era. Mas nós duas estávamos em um curso de homem, para homem. Nenhuma professorA, nenhuma figura feminina pra servir de reflexo, alento, calmaria, conselheira. Nenhuma.

Nessa época, 2015, eu ainda tentava, fazia um esforço imenso para “fazer parte” do universo masculino. Eu achava que ia ficar tudo bem e que eventualmente, essa diferença em que eu ser mulher e eles todos serem homens ia parar de ter um impacto tão gigante, mas não parou viu… Não parou para mim e não parou para ela. Pra resolver isso eu só mudei de faculdade. Ela não está mais aqui.

Estou escrevendo esse texto agora porque sei que é necessário lembrar às pessoas de que existem dores dos outros que elas não entendem.

Eu e Karol só nos aproximamos depois do 4° ano de curso e nossas conversas sempre eram sobre querer o fim dele logo, pra poder deixar o ambiente universitário de lado. E sabe, quando olho pra trás eu me pergunto: será que se ela tivesse se sentido realmente parte do universo em que estava inserida, isso teria salvo a vida dela? Eu não sei e eu nunca vou saber. Mas tem algumas coisas que eu sei e essas eu sei muito bem:

  • Ser mulher estudante de engenharia é cansativo, pesado, doloroso e frustrante.
  • Homens que cursam engenharia ou que são professores de engenharia normalmente tem uma tendência ENORME em querer humilhar os outros, especialmente se esse “outros” forem mulheres.
  • Quando você é mulher e cursa uma graduação que quase só tem homens você tem poucas opções: tentar se encaixar no universo deles e esquecer quem você é; se isolar ou encontrar uma forma de ser você mesma sem sofrer no meio…

Eu fiz as duas primeiras coisas. Ela também. Enquanto eu tentava me encaixar no universo deles eu realmente achei que estava conseguindo fazer parte, mas não passava de uma ilusão ridícula. Os homens ignoram que aquela mulher que está ali é uma mulher para que a “amizade” possa acontecer. Eu ouvi milhares de frases ao longo desse período como: “Você é mais macho que muito homem aqui”; “A gente gosta de você porque você não tem frescura de mulherzinha”; “Você é um brother, só que de saia”; E por aí vai. Isso não é inclusão. Isso não é fazer parte. Isso não é bom ou positivo. Quando me dei conta disso, veio a segunda opção: isolamento. Eu preferia estar sozinha do que na companhia de qualquer um dos meus colegas homens. Eu não queria mais estar lá. Eu ia para a aula todos os dias sofrendo por ter que estar lá. E eu sei que a Karol também. Nossas conversas eram sobre isso sempre.

Quando penso nisso entendo que meu papel nesse mundo também é o de acolher e apoiar as mulheres, que assim como eu, se veem sozinhas em seus estudos, profissões e carreiras.

Sei lá… Eu não sei bem ao certo o tipo de mensagens que estou passando escrevendo sobre isso, mas eu gostaria de fazer 2 pedidos.

Mulheres: Apoiem umas às outras. Especialmente quando somos poucas, precisamos nos unir para conseguir evoluir, melhorar e conseguir acreditar que as coisas podem ser boas.

Homens: Se vocês trabalham/estudam uma área que tem poucas mulheres, ajudem essas poucas mulheres a se sentirem acolhidas e fazendo parte de tudo que for possível. Tratem elas com respeito e igualdade. Não diminuam o fato delas serem mulheres para que possam ser incluídas no círculo. Lembrem-se que “você é mais macho que muito homem” não é elogio. Lembrem também que elogiar a aparência ou tratar tudo como um flerte não vai ajudar nenhuma mulher…

É isso. Espero que eu consiga fazer mais pelas Karois. Espero que nosso meio se torne menos hostil e mais acolhedor. Espero que em algum momento Engenharia signifique algo diferente de “separar os homens dos meninos”. Espero que os professores das áreas exatas comecem a se preocupar com algo além de integrais duplas e triplas e com respostas perfeitas. Espero que as universidades comecem a formar engenheiros mais humanos.

Nós somos mulheres e merecemos mais do que um espaço meia boca pra trabalhar e estudar. Nós somos mulheres e escolhemos áreas de trabalho que ainda são predominantemente masculinas. Lidem com isso.

Amanda Carneiro

Engenheira de software, apaixonada por tecnologia. Amo arte, amo conhecer lugares novos e viver viajando é o que me motiva todos os dias.