Amanda Carneiro
4 min readMar 25, 2020

COVID-19 a quarentena

Acho que o assunto mais comentado no meu círculo de convivência nas últimas duas semana é a tal da quarentena devido ao COVID-19. Alguns dos tópicos sempre são: o que fazer para não sentir tédio, como melhorar a produtividade no Home Office e como não surtar com todas as notícias ruins.

Eu decidi escrever esse texto para compartilhar como venho me sentindo e o que tenho feito, então vou começar pelo começo. Estou em confinamento a 8 dias, ainda é pouco tempo e não estou em confinamento total, saí algumas poucas vezes para ir na esquina de casa comprar verduras, legumes e pão na venda do meu bairro, não no mercado.

Eu não surtei ainda, não entrei em desespero e não estou me sentindo absurdamente improdutiva. O que tem me mantido nos trilhos são 3 coisas, primeiro que tenho esse privilégio imenso de poder fazer o Home Office sem nenhum prejuízo ao meu salário, segundo que minha família está se cuidando e está agindo com consciência e terceiro que tenho todos os recursos que preciso em casa, também tenho meu marido em casa junto comigo.

Para não entrar em pânico estou lembrando diariamente que eu como individuo estou fazendo tudo o que posso por mim e pelos outros. Também estou lembrando que sou uma pessoa privilegiada por poder fazer meu trabalho remotamente e mais privilegiada ainda por ter uma casa onde me confinar.

Eu gostaria de poder fazer mais pelos outros, mas algumas coisas me mantém dentro de casa sem tentar nenhuma ação além de cumprir as ordens da organização mundial de saúde, bom, eu não tenho nem um curso de primeiros socorros, tenho problemas com sangue e machucados, então sei que eu seria completamente inútil tentando servir pela saúde dos outros. Eu não sou parte do grupo de risco, então eu seria uma potencial transmissora aos que são. Eu estou longe dos meus familiares que são do grupo de risco, então nem ajudar a eles com o Básico consigo no momento.

Eu sei que várias dessas coisas que estou listando são motivo de desespero e agonia para algumas pessoas. Mas não para mim nesse momento. Eu sei que estou fazendo um esforço muito grande para pensar positivamente, não aquela positividade burra sabe, mas a positividade no sentido de que sim, essa é minha realidade, eu sou mais privilegiada que muitos e sim, tenho a possibilidade de me proteger e proteger os outros dentro de certas limitações e por hora, está ótimo. É triste saber e pensar em quantos vão sofrer e morrer em função disso tudo, mas seria mais triste ainda se eu acordasse e estivesse doente ocupando um leito que poderia ser de outra pessoa, seria mais triste ainda se eu estivesse com o vírus, nem percebesse e passasse para outra pessoa do grupo de risco…

Então nesse momento de desespero generalizado eu acredito que as pessoas que são privilegiadas, assim como eu, são as que precisam fazer todo esforço possível para manter a própria saúde, a sanidade mental e a distância necessária dos que não podem se distanciar da situação, como médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde. Acredito que é minha responsabilidade estar bem e forte para que quando a situação passar eu possa agir ajudando os que estão sofrendo agora. Também acredito que é muito egoísmo se preocupar com coisas como tédio e falta de produtividade em um momento como esse. Se você tem acesso à internet e acesso a meios de comunicação, lide com isso. Aproveite o privilégio que você tem e lide com isso. Pode parecer uma grande besteira e pode parecer que “eu não entendo” como é ser uma pessoa extremamente ativa e do nada precisar ficar fechada dentro de casa. Na verdade eu entendo sim. Entendo muito bem e entendo mais ainda que os que estão fechados em casa são os que menos podem reclamar, nossa única função nesse momento é essa, ficar em casa, com tédio e falta de produtividade. É isso.

E você está pensando nos profissionais da saúde que estão se expondo para poder cuidar dos que estão adoecendo? Está pensando nos profissionais que produzem os alimentos e estão se expondo para que você possa comer? Engula a bosta do seu tédio e cumpra sua parte nesse momento, sua parte é pequena e é a mais fácil de todas. Só faça o mínimo.

Temos internet, YouTube, Netflix,cursos online, sabe?! Uma infinidade de coisas a um click de distância, mas não, os bonitos querem ir correr no parque, passear no shopping, ir no cinema, andar de bicicleta… É uma pandemia, não é pra ser divertido. Se fosse pra ser divertido era passeio na Disney, mas não é isso, né?!

Enfim, eu fico mais irritada do que qualquer coisa, não estou angustiada, intediada, chateada, estou é irritada. Eu tenho vontade de mandar um grande e sonoro: “Vai tomar no meio do cu, anjo”, toda vez que alguém me fala coisas como: não é nada, não tem problema sair de casa porque eu não sou o grupo de risco, estou intediada/intediado, minha produtividade está ruim… Foda-se, foda-se, foda-se, saia de dentro do seu próprio umbigo, olha em volta e entenda que você estar falando isso é só a prova de que você não tem noção de merda nenhuma do que está acontecendo com os outros a sua volta…

Sei lá, talvez quando eu estiver a 16, 32, 64 dias eu mude minha opinião, mas agora, a 8 dias é isto. Se você é privilegiado e pode trabalhar de casa sem prejuízos, faça isso e arrume uma coisa melhor pra fazer do que reclamar do tédio.

EDIT: 6 de abril de 2021. Continua sendo tudo verdade, se as pessoas que podem ficar em casa tivessem de fato ficado, a situação estaria bem menos caótica. É isso…

Amanda Carneiro

Engenheira de software, apaixonada por tecnologia. Amo arte, amo conhecer lugares novos e viver viajando é o que me motiva todos os dias.