Conversa de travesseiro

Amanda Carneiro
3 min readMar 9, 2018

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Me via como mulher forte e capaz, me achava muito mais certa do que as outras mulheres por agir do jeito que eu agia, por pensar do jeito que pensava, por falar da forma como eu falava.

No fim das contas, eu só achava que era uma mulherona da porra, mas estava sendo machista, ajudando a propagar ódio e ajudando a diminuir outras mulheres. Eu sei do fundo do coração que não fiz isso com uma intenção ruim, eu só estava procurando formas de me defender e no instante em que percebi que em vez de apenas me defender eu estava também ofendendo e atingindo negativamente outras mulheres eu tive um colapso. Um misto de tristeza e vergonha de mim mesma.

A desconstrução de conceitos, de forma de agir, de pensamentos e conhecimentos é um processo que tem sido incrível. Eu me dei conta do quão nociva eu estava sendo justamente com o que e com quem eu queria defender. Ainda bem que atualmente temos mulheres maravilhosas, fortes e empoderadas verdadeiramente, elas é que me ensinaram a ver um pouco melhor a dimensão da importância da sororidade. Olha essa definição maravilhosa sobre sororidade: Sororidade é a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum.

Hoje para mim ainda é difícil criar novos vínculos e laços com mulheres que ainda não conheço, tenho me aproximado mais das que eu já conheço e convivo, o que é um grande passo para essa mulher em processo constante de desconstrução que sou. O engraçado e irônico é que, por anos, eu me vi defendendo várias minorias, só não parei pra defender a que eu pertenço 100%.

Sou mulher. Estudante de engenharia da computação. Sou mulher. Programadora. Sou mulher. Passei anos da minha vida tendo um sentimento de inferioridade por ser mulher, fazendo um esforço imenso para “não ser fresca”, “parar de ser mulherzinha”, “ser grossa que é melhor que ser carinhosa” e outras milhares de aspas em que vivi presa, porque falar: sim, sou mulherzinha, mulher, mulherão era uma coisa pesada para mim e eu nunca soube lidar bem com isso. Mas é isso, sou mulher, tenho sonhos e objetivos que estão acontecendo com o tempo, esforço e mérito meus, sim, mas se não fosse pela força, luta e batalha de outras essas possibilidades jamais poderiam ter sido criadas para mim. Então, antes de tudo, antes de aspirante à engenheira, programadora, sou mulher e sou grata, absurdamente grata pela luta e pela generosidade das outras mulheres em compartilhar essas conquistas com todas nós.

Ainda tenho um longo caminho a trilhar, a desconstrução é um processo para a vida toda e eu estou perfeitamente feliz em fazer esse processo e estou mais feliz ainda por ter aprendido a manter vínculos com pessoas que entendem e respeitam tudo isso, especialmente sou feliz e imensamente grata por ter o homem que amo tendo uma clareza tão grande, se desconstruindo do meu lado para que eu possa ser uma mulher melhor para mim mesma e para as outras e para que ele seja um homem respeitoso e forte nessa luta que ainda temos pela frente por toda mulher que ainda sofre os efeitos do machismo em sua vida.

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Amanda Carneiro

Engenheira de software, apaixonada por tecnologia. Amo arte, amo conhecer lugares novos e viver viajando é o que me motiva todos os dias.