Amanda Carneiro
3 min readJun 15, 2018

Vou fazer uma comparação bem simples, bem superficial e que não representa nem 1% do significado do conceito, mas é simples para entender.

Você está com o braço quebrado e me fala: “meu braço está doendo muito e não posso fazer nada porque ele está engessado.” E eu, bela que sou, vou demonstrar minha empatia por você e falo: “a sei como é, uma vez bati meu cotovelo na mesa e doeu”. Minha dor naquele instante pode ter sido muito grande, mas eu jamais poderia ter colocado em comparação com a sua dor, neste instante, nesta circunstância.

Eu jamais poderia tomar a sua voz e tentar forçar uma compreensão que eu não tenho pois afinal de contas, eu mesma nunca quebrei o braço… Então quando alguém perguntar a respeito de braços quebrados, quem vai ter a propriedade para falar a respeito é você e não eu. Eu posso ver milhões de braços quebrados, se o meu não for quebrado eu nunca vou poder abrir a boca e falar que eu sei exatamente qual é o sentimento, a intensidade da dor ou qualquer coisa parecida. Posso ajudar alguém que está com o braço quebrado, posso apresentar um amigo que já quebrou o braço para um que está com o braço quebrado, posso até indicar um ortopedista, tudo isso se me for solicitado… O que não posso fazer é me posicionar como se eu já tivesse quebrado o braço.

Ok, dada esta introdução meio pobre e meio falha, vamos ao que interessa… Falei sobre braços quebrados, mas no fundo o que importa é o tipo de comportamento que é passível de se ter ou não em uma situação. É muito delicado dizer o que uma pessoa pode ou não dizer, fazer, opinar ou questionar, mais delicado ainda, é compreender qual é a nossa posição real e verdadeira perante qualquer situação.

A um tempo atrás eu descobri o termo “local de fala”, que é um resumo perfeito para representar vários sentimentos de vários conjuntos de pessoas. E o que é esse tal de local de fala? É basicamente a posição que você toma, seja dando uma opinião, defendendo uma posição ou argumentando sobre vivências porque você é uma pessoa com as características que estão sendo levadas em consideração.

Ainda não faz sentido? Bom, o assunto é: “trabalhar no meio tecnológico sendo mulher...” Este é o meu local de fala. Eu sou uma mulher, eu sou programadora. Quando o assunto é este, eu posso fazer afirmações e ter certezas sobre isso, porque eu faço parte desta minoria: mulheres que são programadoras. Se você também trabalha com programação este também é seu local de fala? Bom, vamos ver, você é mulher? Caso a resposta seja não, este não é seu local de fala. Você pode questionar, tentar compreender, ajudar e ouvir colegas de profissão mulheres, você pode defender e apoiar que mulheres sejam sim inseridas no meio tecnológico e uma infinidade de outras coisas, mas enquanto você for homem, este não é seu local de fala.

O local de fala não existe para reprimir opiniões, nem para anular bons comportamentos, ele existe para que as pessoas que estão inseridas em grupos minoritários possam ter uma abertura para tratar de assuntos que dizem respeito a elas, para que suas experiências e opiniões sejam levadas em consideração a partir do ângulo de quem está vivenciando determinada condição e principalmente para que o discurso que é espalhado seja o discurso real e verdadeiro de quem está vivendo naquela minoria, em vez de levar em conta as posições e visões de alguém de fora da situação.

Bom, este texto é só um pedacinho do começo do significado do local de fala… Eu vi pessoas maravilhosas falando sobre isso antes de pensar em escrever, este é só um dos conteúdos que podem ajudar nessa compreensão:

Amanda Carneiro

Engenheira de software, apaixonada por tecnologia. Amo arte, amo conhecer lugares novos e viver viajando é o que me motiva todos os dias.